terça-feira, 27 setembro 2022
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Ana Dumas

Foi no rio Caí, localizado no município baiano de Prado, que a frota de Pedro Álvares Cabral desembarcou em 23 de abril de 1500, iniciando o processo de colonização no Brasil. Foi também em Prado, que a filósofa e artista multimídia Ana Dumas se isolou durante boa parte da pandemia da Covid-19, se distanciando da Capital, mas se aproximando do mundo através da internet e das plataformas digitais.

O encontro entre tecnologia, história e pandemia, foi o que despertou em Dumas a ideia para a construção da exposição virtual “Colôniavirus”, que a partir de 25 obras pensa a colonização do Brasil como um vírus que, assim como o corona, espalhou-se, deixando sequelas irreparáveis na sociedade.

A exposição, que tem acesso gratuito, ficará hospedada no site coloniavirus.com.br e será lançada no dia 29 de agosto, às 19h, através de uma live no instagram (@colonia_virus), com participação da filósofa e dos artistas Ramon Gonçalves e Laís Machado, que também fazem parte do processo.

“Nesse momento de imersão tecnológica comecei a pensar sobre esse vírus da informática, que invade, corrompe, destrói e como isso tinha a ver com o lugar em que eu estava, que também foi invadido e corrompido pela colonização. Comecei também a prestar atenção em como eu reproduzo muitas ideias coloniais, como cada um de nós somos replicantes desse vírus. E a partir daí muitas questões foram surgindo: Por que os portugueses foram embora, mas a mentalidade colonial continua? Quem alimenta isso? Como a gente pode agir para que isso seja interrompido?”, reflete Ana Dumas.

A relação com o virtual é incorporada também nos formatos das 25 obras, que abarcam 15 conceitos pensados por Dumas e mesclam o analógico com o digital. Na exposição é possível ver impressões em lambes, pinturas, formatos artesanais com interferências digitais, além de peças sonoras sob o formato de cards, gifs, fotografias, fragmentos de vídeos e colagens digitais.

“Esses 15 conceitos são possibilidades de resistência à colonização, são meus antivírus, nossos antivírus. Por isso, as obras possuem uma abordagem muito objetiva e visual, de forma que possam ser compartilhadas em todas as redes sociais. Elas foram feitas para viralizar. Esses antivírus já existem há muito tempo, através dos quilombos, das tribos indígenas, das ações de resistência que marcaram a história do Brasil, como a guerra de Canudos, por exemplo, mas a ideia é pegar os ideais em que baseiam essas resistências e jogar na rede, que é onde todo mundo, inevitavelmente, está agora”, explica.

Dumas cita a hierarquia de classes, o capitalismo, o racismo, o machismo, e sobretudo, o patriarcado, como algumas das ideias oriundas do colonialismo, o que reitera a necessidade de combater esse vírus e repensar as estruturas sociais tomando como base formas de viver ancestrais que foram dizimadas pela chegada dos povos europeus.


“Aqui no Prado eu vivo no que chamo de quilombolha. E é aqui que eu tento me reencontrar comigo mesma, com a minha cultura cabocla, totalmente oral, com a minha relação com a natureza, com as plantas e com o cultivo. Cresci numa família liderada e sustentada por mulheres, totalmente matriarcal, e retomar isso para minha vida e para a forma como eu enxergo o mundo, significa combater o patriarcado, ser um antivírus da colonização”, afirma Dumas.

Dentre as obras que destacam o aspecto matriarcal da anti colonização, está “Plantação de memórias”, que reúne histórias de mulheres do Prado, a partir dos elementos que compõem o quintal de cada uma delas, as plantas, os objetos e a organização do espaço. Já na obra “Preta Velha”, Ana Dumas repensa o significado dessa entidade, sempre associada à bondade, calmaria e paz. Na obra, a Preta Velha aparece como uma mulher atemporal, que também sente raiva e revolta, que precisa tanto do seu banho de folhas para limpar as energias negativas, quanto do wifi para se comunicar e expressar suas ideias para o mundo.

“Assim como o coronavírus, a colonização não foi um problema de um ou outro país, foi um problema para a humanidade, que exigiu diversas formas de reinvenção. Nessa exposição eu proponho isso, formas de nos reinventarmos, não necessariamente criando coisas novas, mas retomando formas viver que foram apagadas pela colonização”, finaliza a filósofa.

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

De James Brown, icônico músico dos anos 60 e 70, a Larissa Luz, destaque da nova geração de artistas baianos, a música e a estética sempre foram elementos utilizados pelos negros como forma de expressar questões referentes a luta política e empoderamento social.

O visual colorido, pop, rebelde e exuberante, criado e disseminado pela população negra, denominado BRAU, é o tema central do novo livro da filósofa e artista multimídia Ana Dumas “BRAU – MANIFESTO BRASILEIRA UNIVERSAL”, que será lançado neste sábado, 10, às 20h em live no instagram @manifestobrau, com participação da autora e mediação designer editorial e artista visual Gil Maciel.

O livro, publicado em formato digital, poderá ser acessado através do link disponibilizado também no perfil do instagram.

A publicação tem o intuito de atingir principalmente jovens negros, mas também professores, pesquisadores e todas as pessoas interessadas no assunto. O formato do livro, pensado para ser facilmente acessado através de smartphones, tem o intuito de democratizar as informações e atingir os leitores da nova geração.

De acordo com Ana, o BRAU se refere ao estilo, modos e comportamento dos negros norte-americanos durante as explosões do Black Power e da Soul Music, movimentos negros norte-americanos de luta contra a discriminação social/racial, surgidos nos anos 60, na efervescência das lutas pelos direitos civis.

“É uma estética que ainda existe e vem se atualizando ao longo das gerações, ganhando outras formas e nomenclaturas de acordo com as transformações que o mundo vive. O livro será disponibilizado em pdf, para que os jovens possam ler do próprio celular, mas também porque é um formato que me permite acrescentar novas informações futuramente”, completa a autora.

O interesse da filosofa pelo assunto começou em 1981, quando se mudou para Salvador e se deparou com essa estética nas ruas da cidade ao ver, por exemplo, a Timbalada ensaiar nas ruas do Candeal. A partir deste contato, a ideia de BRAU nunca mais saiu da vida de Dumas e sua pesquisa foi se aprofundando. O livro é resultado de um estudo que acontece desde 1997 e foi passando por diversas atualizações.

*SERVIÇO:

LIVE DE LANÇAMENTO DO LIVRO – “BRAU – MANIFESTO BRASILEIRA UNIVERSAL” com Ana Dumas e Gil Maciel.

Data: 10/07 (sábado)

Horário: 20h

Instagram: @manifestobrau

Gratuito


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