
O desfile acontece no sábado, 18 de outubro, às 19h, no Pavilhão das Culturas Brasileiras (Pacubra), no Parque do Ibirapuera
Batizada de “Águas de si: Quando a mulher veste mar”, a nova coleção da Santa Resistência irá traduzir a relação da mulher com o mar ao longo dos séculos e em diferentes regiões.
Na mitologia grega, temos as sereias ou sirenas, que seduziam os navegantes com suas vozes melódicas e os atraíam para a morte se desrespeitassem os mistérios do mar. Também vem da Grécia Afrodite, deusa do amor e da beleza, criada da espuma do mar, após Cronos castrar seu pai, Urano, jogando sua genitália nas águas.
Ainda na Antiguidade Clássica, só que na Síria, Atargatis era a deusa da fertilidade e dos oceanos, que se jogou no mar após se apaixonar por um mortal e se transformar metade em deusa, metade em peixe.
Já na cultura africana, Iemanjá é ligada à religiosidade dos povos iorubás, se transformando em terras brasileiras na Rainha do Mar. Por aqui, temos também a Iara, uma sereiabrasileira que usa sua beleza e voz para seduzir os homens –chamada de Mãe d’Água, Iara faz parte da mitologia de nossos povos originários.

Boa parte dessas lendas retratam-nas como protetoras dos oceanos, defendendo a preservação dos ecossistemas marinhos. Com a crescente preocupação sobre a poluição e as mudanças climáticas, a mulher-oceano se torna uma figura inspiradora para iniciativas de conservação e preservação e o símbolo maior da economia azul.
Na oitava participação da Santa Resistência no SPFW, amulher-oceano inspira a construção de algumas peças-chaves do desfile, caso dos looks feitos de escama de peixe; as três estampas centrais da coleção; e a paleta de cores, que alterna tons de pêssego, azul, verde e dourado.
As artesanias estão presentes mais uma vez, agora em bordados manuais com desenhos marinhos, tramas de macramê que formam águas-vivas e vestidos de crochê representando Iemanjá.

Algumas peças terão ainda aplicações de escamas de pescada amarela, camurupim e piracema. As artesãs da Associação Farol de Cabedelo, na Paraíba, conhecidas pela arte em escamas, assinam dois looks centrais: um vestido feito com linha de pesca e escamas e um look masculino do mesmo material. Já a artesã capixaba Marina Maia assina um vestido com a pala bordada em escamas e corais.
A artista plástica paraense Lilian Lima, em parceria com Santa Resistência realiza o beneficiamento artesanal de escamas, transformando-as em superfícies translúcidas que dialogam com a pele, a luz e o movimento. Sua contribuição traduz o encontro entre arte e biodesign, ampliando o repertório sensorial da coleção e reafirmando o compromisso da Santa Resistência com sustentabilidade.
A água viva estará representada em um vestido de crochê feito pela estilista Milena Guerke e em um look em jacquard de algodão e franjas que traduzem os movimentos suaves deste animal marinho.
O artista visual carioca radicado em Trancoso, Rodolfo Mariano, conhecido pelos desenhos com caneta BIC, pintou à mão dois looks em estilo navy, mesclando Iemanjá, pirarucu e algas marinhas.
A Santa Resistência também levará para a passarela três estampas feitas a partir das aquarelas criadas pela designer Marcela Citon. Nesta edição, a marca presta homenagem à artista plástica Adriana Varejão, referência fundamental nas artes visuais brasileiras. A estampa principal do desfile nasce da junção de duas obras icônicas da artista — “Figura deConvite III” e “Celacanto Provoca Maremoto”. A fusão dessas obras revela o diálogo entre corpo e oceano, interior e exterior, feminino e território. Assim, Varejão torna-se uma das “mulheres oceanos” que inspiraram a Santa Resistência nesta coleção.
Outras referências à mulher oceano vêm de obras como “O Nascimento de Vênus” (Botticell, 1483); “Emblema IV” (Rubem Valentim, 1977), que expressa o axé de Iemanjá; a pintura “Muiraquitã, Fascinação de Iara” (Theodoro Braga, 1929); e a escultura de sereia do pernambucano José Corbiniano Lins, de 1964, hoje exposta na orla de Maceió.
O respeito ao meio ambiente, um dos valores da marca, é reforçado na escolha de tecidos sustentáveis como algodão, modal, Liocel e viscose EcoVero (feitos de fibras extraídas de madeira oriunda de florestas sustentáveis e fabricadas com baixas emissões de carbono), além de seda e seda de algodão.
Coerente com seu propósito de transformar a vida de mulheres em situação de vulnerabilidade econômica, 70% da produção da marca foi feita pelo coletivo Costureiras da Maré, no Rio de Janeiro.
