
Novo levantamento global mostra queda no engajamento profissional; especialista Kiko Kislansky analisa como a perda de sentido pode estar relacionada às transformações na relação das pessoas com o trabalho
A relação das pessoas com o trabalho atravessa um momento de transformação. O State of the Global Workplace 2026, levantamento divulgado pelo Gallup, mostra que apenas 20% dos profissionais no mundo estavam engajados em seus trabalhos em 2025, menor percentual registrado desde 2020. A queda ocorreu pelo segundo ano consecutivo e, segundo a instituição, o baixo engajamento representa uma perda estimada de US$ 10 trilhões em produtividade para a economia mundial.
No Brasil, o cenário traz outro dado relevante. Embora o percentual de trabalhadores engajados seja superior à média global, chegando a 32%, 45% dos profissionais brasileiros afirmaram ter sentido muito estresse no dia anterior à pesquisa. Outros 19% relataram tristeza e 10% solidão.
Os números ajudam a ampliar uma discussão que vai além de salário, cargo ou produtividade: afinal, estamos diante apenas de uma crise de engajamento profissional ou existe também uma dificuldade crescente de encontrar significado naquilo que fazemos?
Para Kiko Kislansky, especialista em sentido e propósito, fundador da Global Purpose School e criador da Propositologia®️, fenômenos como desengajamento, insatisfação profissional e sensação de vazio podem ser analisados também a partir da relação que as pessoas estabelecem com o significado do próprio trabalho. “O contrário do desengajamento não é simplesmente trabalhar mais. Uma pessoa pode ser extremamente produtiva e, ainda assim, não encontrar significado naquilo que faz. O desafio contemporâneo talvez seja compreender por que tantas pessoas conseguem entregar resultados sem necessariamente sentir que aquilo que fazem tem sentido”, afirma Kiko.
O próprio Gallup identificou, em sua análise mais recente, que trabalhadores que consideram seu trabalho intrinsecamente recompensador, percebem que ele melhora a vida de outras pessoas e sentem maior possibilidade de escolha sobre aquilo que fazem apresentam níveis mais elevados de bem-estar e engajamento. O dado indica uma associação importante entre a experiência subjetiva do trabalho e a maneira como as pessoas avaliam a própria vida profissional, sem estabelecer uma relação automática de causa e efeito.
A discussão não se restringe ao ambiente corporativo. Relatório da Organização Mundial da Saúde aponta que uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta solidão, fenômeno associado a impactos significativos sobre saúde e bem-estar. A OMS estima ainda que a solidão esteja relacionada a mais de 871 mil mortes por ano no mundo. “Talvez estejamos olhando separadamente para fenômenos que merecem ser observados em conjunto. Burnout, solidão, desengajamento e insatisfação com a própria trajetória têm causas diversas e complexas, mas também levantam uma pergunta comum: que significado as pessoas estão conseguindo atribuir à vida, às relações e ao trabalho?”, analisa Kiko.
Há mais de uma década dedicado ao estudo e ao desenvolvimento de metodologias relacionadas ao tema, Kislansky defende que falar sobre significado não significa propor uma explicação única para questões de saúde mental, produtividade ou relações humanas.. “Seria simplista dizer que falta de propósito causa burnout ou adoecimento. Não é isso. Existem fatores clínicos, sociais, econômicos e organizacionais envolvidos. O que precisamos investigar é se a perda de significado tornou-se mais uma variável importante para compreender o nosso tempo”, ressalta.
Segundo o especialista, uma das grandes mudanças contemporâneas está justamente no conceito de sucesso. Carreira, remuneração e reconhecimento continuam relevantes, mas parecem não responder sozinhos às expectativas de parte crescente da população. “Durante muito tempo, ensinamos as pessoas a perguntar onde querem chegar. Talvez este seja o momento de acrescentar uma segunda pergunta: para que queremos chegar lá? A maior crise da humanidade talvez seja também uma crise de significado”, conclui Kiko Kislansky.
