
A animação cearense “A Lenda de Keya” chega aos cinemas ainda este ano como um marco para o audiovisual do estado. Primeiro longa-metragem de animação do Ceará com temática centrada no pertencimento indígena, o filme aposta em uma narrativa que dialoga com o universo dos encantados e incorpora trechos em tupi, reforçando o compromisso com a valorização cultural e linguística dos povos originários.
Dirigido por Claudio Martins, o projeto acompanha a história de Ana, uma menina que vive em um orfanato e encontra em uma tartaruga seu principal vínculo afetivo. Quando o animal é levado por uma ONG, ela decide fugir para resgatá-lo. Ao lado do amigo Iacatan, personagem que ganha voz do ator Silvero Pereira, a protagonista embarca em uma jornada marcada por mistérios, encontros com seres encantados e descobertas sobre identidade e pertencimento.
A produção se destaca pelo cuidado na construção simbólica e cultural. O roteiro e os elementos visuais contaram com a consultoria do escritor e ativista indígena Daniel Munduruku, referência nacional na defesa dos direitos e da cultura dos povos originários. Para a criação dos grafismos, foram convidados artistas do povo Pitaguary, enquanto o povo Anacé Kauype colaborou na captação de sons da natureza, ampliando a conexão do filme com territórios e saberes tradicionais.
Outro ponto central do projeto foi a inclusão de diálogos em tupi, trabalho realizado com apoio de pesquisador especializado na língua. A iniciativa reforça o compromisso da equipe em construir uma narrativa ficcional que, embora inserida no campo da fantasia, mantenha base cultural sólida e respeitosa.
“A Lenda de Keya” também simboliza o fortalecimento do audiovisual regional. O longa foi contemplado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio de edital do Governo do Ceará, somando investimento de R$ 1,4 milhão. Além de ampliar a presença de produções nordestinas no circuito nacional, o filme busca valorizar artistas locais e promover reflexões sobre identidade, ancestralidade e reconhecimento das raízes indígenas no Brasil.
Com uma história voltada ao público infantojuvenil, mas atravessada por temas sociais e culturais relevantes, a animação se apresenta como uma obra que une entretenimento e formação, abrindo espaço para novas representações no cinema brasileiro.
