
Lançado nesta terça-feira (3), o novo trabalho do artista baiano reúne seis faixas e propõe uma reflexão sobre racismo cultural, identidade e a relação entre música e território
O músico e produtor baiano André That Hora lançou nesta terça-feira, 3 de novembro, o EP “Zuada”, trabalho de seis faixas que combina guitarras distorcidas, rap, trap, pagodão e samba-reggae. O projeto parte de uma discussão sobre os critérios que determinam quais manifestações sonoras recebem reconhecimento cultural e quais são frequentemente associadas à desordem, especialmente quando produzidas em territórios periféricos.
A escolha do título sintetiza o conceito do disco. Popularmente utilizada para definir barulho, excesso ou perturbação, a palavra “zuada” ganha outro significado na obra de André. O artista transforma o termo em uma afirmação da identidade musical negra, questionando a maneira como diferentes expressões sonoras são percebidas e valorizadas socialmente.
A reflexão aparece na comparação entre a guitarra distorcida, historicamente associada à rebeldia do rock, e os graves dos paredões de som presentes nas periferias brasileiras. Para André, as diferenças de tratamento dessas manifestações também estão relacionadas a questões de raça, classe social e ocupação dos espaços urbanos.
Musicalmente, o EP aproxima referências do nu metal e do groove metal de ritmos ligados à cultura afro-baiana. As guitarras pesadas dividem espaço com elementos eletrônicos, percussões e estruturas rítmicas que remetem ao pagodão e ao samba-reggae, estabelecendo conexões entre gêneros que fazem parte da formação artística do músico.
Entre as influências citadas por André estão Sepultura, Rage Against the Machine, Nação Zumbi e BaianaSystem. O trabalho também recupera a contribuição de artistas negros fundamentais para o desenvolvimento do rock, como Sister Rosetta Tharpe, Chuck Berry e Little Richard, cujas trajetórias ajudam a compreender as origens do gênero.
A presença dessas referências integra uma pesquisa sobre a participação negra na construção da música alternativa e sobre as possibilidades de aproximar diferentes tradições musicais sem estabelecer hierarquias entre elas.
“Quero colocar a distorção das guitarras em diálogo com a força dos nossos tambores, o grave do pagodão, a pulsação do samba-reggae e a insurgência do rap, sem estabelecer hierarquias entre essas linguagens”, afirma o artista.
O novo trabalho dá continuidade a uma trajetória de experimentação iniciada em projetos anteriores. Nascido em Salvador, André começou sua atuação musical no hip-hop e integrou a BTB Music, coletivo associado ao desenvolvimento da cena trap brasileira. Posteriormente, lançou “XX7” (2021), “Traprock” (2023) e “Rockerz” (2024), trabalhos que aproximaram o rap de referências do hardcore, do metal e de outras vertentes da música urbana.
Em “Zuada”, essa pesquisa ganha uma abordagem mais diretamente relacionada às experiências culturais de Salvador. A cidade aparece como referência para a construção das músicas, especialmente por meio dos ritmos afro-baianos e das manifestações sonoras presentes no cotidiano de seus bairros e comunidades.
A direção musical do EP é assinada por André That Hora e Raonir Braz. O processo de produção envolveu experimentações com timbres, texturas e estruturas rítmicas, buscando integrar os diferentes elementos musicais em uma mesma composição.
O trabalho também conta com participações de APU Tude, nas faixas “Acerto de Contas” e “Na Maldade”, e RLLXX, que colabora em “Acerto de Contas”.
A proposta estética se estende à identidade visual do lançamento, que utiliza referências da cultura punk e das publicações independentes conhecidas como zines. Historicamente associados à circulação de ideias e produções artísticas fora dos grandes circuitos comerciais, esses materiais influenciaram a construção gráfica do projeto.
A direção de arte é de Sista Katia e André That Hora, com identidade visual assinada por Rafael da Rolé 89. A produção executiva e a gestão são de Pyedra Barbosa.
Lançado de forma independente, o EP está vinculado à MPN Records, estrutura criativa sediada na WR Bahia. A iniciativa acompanha a proposta de André de desenvolver uma produção musical com autonomia artística e liberdade para experimentar diferentes linguagens.
Com “Zuada”, André That Hora amplia sua investigação sobre as origens negras do rock e a presença das musicalidades afro-baianas na produção contemporânea. O lançamento também coloca em discussão as relações entre música, preconceito e reconhecimento cultural, a partir de uma sonoridade que aproxima a distorção das guitarras da força rítmica das periferias de Salvador.
