
Carla Pita – Crédito: Roberto Ribeiro
Nesta sexta-feira (24), às 19h, a Casa do Olodum será palco de um lançamento literário duplamente festivo. A conselheira da instituição, pedagoga afrocentrada e contadora de histórias, Carla Pita, celebra seus 50 anos estreando na literatura com ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mfigico-encantados’. Ilustrada pelo escritor e ilustrador carioca Edson Souza, a obra marca o nascimento da Editora Irê Afropedagogia e abre as portas da Trilogia Ndoki.
Tecido na encruzilhada entre a literatura mágico-encantada, a ancestralidade africana e a tradição oral dos terreiros, o livro é um manifesto de literatura de cura. As histórias são baseadas nas vivências de Carla Pita em Angola e em comunidades tradicionais de terreiro na Bahia. “Trabalhei e vivi na Angola profunda, de Cabinda ao Cunene, durante muitos anos; um reencontro ancestral que se tornou o grande divisor de águas da minha vida”, destaca.
Mas, essa imersão também trouxe dor e impotência à autora, que testemunhou graves violações de direitos contra crianças, mulheres e anciãos acusados de feitiçaria. “As violências e a consequente exclusão social crescem em toda a África Subsaariana. Suas raízes são truculentas, plantadas pelo colonialismo europeu e alimentadas hoje pela expansão de religiões cujos discursos incendiários de seus líderes associam a pobreza e a doença a ‘espíritos malignos’, marginalizando curandeiros, kimbandeiros, sobas e terapeutas tradicionais”, conta.
Escrever foi a resposta a essa realidade. No livro, o leitor será conduzido pela sabedoria ancestral africana, através de elementos afrofuturistas, e provocado a olhar o mundo por outra perspectiva, no qual a harmonia do corpo, da mente e da comunidade depende do respeito, da escuta e do vínculo inquebrantável com os nossos antepassados.
Território sagrado
As histórias se passam no território sagrado da Aldeia Hossi, onde personagens encontram força para despertar o ‘leão interior’. No conto que dá título ao livro, a guerreira Nambela é guiada por Ondjila, uma reverência direta a Exu Mavambo, divindade que rege os caminhos da própria autora. “Eu caminho sob a égide de Exu; Exu Mavambo é o magnânimo Ndoki da minha vida. É ele quem abre os caminhos e rege o meu destino. Essa conexão espiritual transborda para a minha trilogia”.
Os três livros – os outros dois estão em processo de finalização – são baseados em uma pedagogia afrocentrada e emancipatória, através da abordagem de temas como afrofuturismo, ancestralidade, cultura afro-brasileira e espiritualidade.
“Na minha prática, transformo esses pilares em vivências concretas através da contação de histórias e de jogos e brincadeiras afro-referenciados. É assim que apresento a riqueza histórica, a ciência e a inventividade dos povos africanos, sua relação harmônica com a natureza, o respeito aos mais velhos e o senso de comunidade. Levar essa perspectiva para a sala de aula e projetos socioculturais é um ato de reparação histórica. É um movimento que eleva a autoestima das crianças negras e ensina as crianças não negras a valorizarem a diversidade que construiu e pavimentou o Brasil”, garante Carla Pita, que é pedagoga com especialização em Educação Inclusiva.
Mais do que entretenimento, a obra carrega o selo da Irê Rebeliões Culturais e Afro-Pedagógicas, iniciativa idealizada por Carla Pita que atua há 15 anos promovendo a educação para as relações étnico-raciais e a Lei 10.639/03. O livro condensa essa bagagem pedagógica, sendo recomendado tanto para jovens e adultos, quanto para educadores e contadores de histórias que buscam expandir o repertório cultural afro-referenciado.
Atmosfera mística
O universo visual de ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mfigico-encantados’ ganha vida pelas mãos do cientista social, grafiteiro e ilustrador Edson Souza. Para tornar a ficção decolonial ainda mais palpável para o público juvenil e adulto, o artista utilizou uma estética sóbria inspirada em HQs de super-heróis, tendo no Pantera Negra sua maior referência.
“Entendendo que a obra conversa com o público juvenil e adulto – pela densidade de sua imagética e a escrita cheia de nuances de Carla -, pensei em aproximar o meu traço do estilo das ilustrações de revistas em quadrinhos de super-heróis, em particular do artista Brian Stelfreeze, que desenhou a revista do Pantera Negra. Ele possui um estilo sóbrio sem muitos maneirismos, o que emula uma suposta realidade que conduz a leitura, tornando crível a ficção”, explica Edson, que é desenhista autodidata.
Segundo Edson, a colaboração com a autora e educadora baiana se deu através de uma conjunção espiritual, artística e mental. “Como Carla bem reforça, esta parceria já é planejada por ela há muito tempo, após ter contato com a minha arte. Mas, os caminhos são de Exú, e nos encontramos nesta encruzilhada de vivências no tempo certo para a realização deste livro. Ela me enviou uma mensagem na sexta-feira de carnaval, me convidando a ilustrar seu livro. Eu respondi: ‘estou pronto’! O restante é história…”
Essa história será contada no evento de lançamento, no qual o ilustrador vai bater um papo com a autora, com participação do também escritor César Sobrinho. Aberto ao público, e entrada gratuita.
Sobre a autora
Carla Pita é pedagoga com especialização em Educação Inclusiva, produtora cultural, conselheira da Casa do Olodum e idealizadora da Irê Rebeliões Culturais e Afro-Pedagógicas, iniciativa que promove uma educação e literatura afrocentrada. Nasceu em 24 de julho de 1976, em Salvador, Bahia. Escreve poemas, contos e histórias de aventuras desde os doze anos de idade. Na vida adulta, a contadora de histórias encontrou seu público docemente leal: as crianças. Em 2023, foi finalista do Prêmio Inspirar Neoenergia, com o projeto Confluências das Águas de África e Bahia: Navegando por História de Lá pra Cá, que oportuniza a contação de histórias africanas e afro-brasileiras para crianças em creches, escolas públicas e projetos socioculturais, voluntariamente.
Sobre o ilustrador
Edson de Souza é escritor, ilustrador e articulador cultural. Cientista Social formado pela PUC-Rio, com especialização em Estudos das Cidades e Estudos Afro-brasileiros. Artista autodidata que desenha desde a infância. Atua desde 2006 na cena urbana do Rio de Janeiro, onde transita pelo grafite, pelo slam de poesia e pela educação popular. Na literatura, explora a ficção especulativa sob uma perspectiva decolonial. É autor do projeto literário e educacional ‘O Som do Asfalto’, que narra uma construção ficcional da juventude negra periférica em torno do hip-hop e trabalha a formação de professores, agentes e educadores sociais. É ativista engajado em projetos como o Instituto Fala Quilombo, o coletivo Submundo da Arte e o projeto Cores da Periferia.
SERVIÇO
● O que: Lançamento do livro ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ (Editora Irê, 63 páginas), de Carla Pita, com ilustrações de Edson Souza
● Quando: 24 de julho de 2026 (sexta-feira), às 19h
● Onde: Casa do Olodum, Rua Gregório de Matos, 22, Pelourinho, Salvador
● Público-alvo: Jovens, adultos, educadores e público geral
● Quanto: Entrada gratuita Livro: R$ 70,00
