ENTREVISTA: Carol Marra: “Eu não gosto que me rotulem, modelo ou atriz...

ENTREVISTA: Carol Marra: “Eu não gosto que me rotulem, modelo ou atriz transex. Ser transex não é adjetivo!”

Carol Marra por Uran Rodrigues

Carol Marra é o tipo de pessoa que não passa em branco pela vida das pessoas. Ok que ela viveu exatamente pelos mesmos perrengues que a maioria das pessoas que não se enquadram no padrão de gênero. Ok que ela tem um corpo estonteante. Ok que ela é talentosa e, dentre os seus trabalhos na TV como atriz, um dos mais marcantes foi o primeiro beijo trans no seriado Psi (2014), no canal HBO e Débora no romance policial Espinosa do GNT, onde Carol deu mais que selinhos, mas beijos calientes. O currículo da mineira radicada em São Paulo é extenso e envolve ainda trabalhos nas passarelas, no cinema como o longa A Glória e a Graça‘, onde atua ao lado de Carolina Ferraz, com direção de Flávio Tambellini e o mais recente Berenice Procura, além do jornalismo, que é sua formação. Batemos um papo franco com a atriz e ela nos fez altas revelações, desde à infância a sua vida atual. E se mostrou uma vitoriosa Carol Marra é gente que inspira. Confira na entrevista e fotos de Uran Rodrigues.

SiteUR: As pessoas ainda fazem vários julgamento esdrúxulos sobre o travesti. Os observam meio que atravessado, os tem como pessoas de esquina, como prostitutas. Essa mentalidade ainda é presente. O que é preciso ser feito para mudar isso?

Carol Marra: A referência que a maioria das pessoas tem, se você é travesti ou se você é uma transexual, que são coisas diferentes, é de fato, essa mesmo, como profissional de esquina. Ninguém enxerga uma travesti ou transexual como uma modelo, atriz, uma secretária, uma pessoa que varre rua, só enxerga como cabeleireira ou como uma profissional do sexo. E isso é muito cruel, às vezes você tem o talento para exercer outra função, seja qualquer uma, mas as oportunidades são negadas, em virtude da sua sexualidade. Então muitas são covardemente empurradas para a prostituição. Não é por que é legal, é devido a necessidade, as pessoas precisam comer. Tenho várias conhecidas que estão se prostituindo por que ninguém da oportunidade de trabalho. São muito mal vistas.

SiteUR: Qual a diferença entre Travesti e Transexual?

Carol Marra: A Travesti ela aceita a sua genitália, ela se masturba, ela penetra outro homem, enquanto que a transexual ela repudia a sua genitália, daí a necessidade da cirurgia para adequar o corpo e a mente. A transexual ela se acha uma mulher, ela só está presa no corpo de um homem, daí a necessidade da cirurgia, por que a cabeça não funciona. A travesti ela se da super bem com a genitália, ela não tem problema nenhum enquanto a isso.

 

SiteUR: As pessoas têm medo do travesti/transexual?

Carol Marra: Eu não sei. Eu trabalhava com produção de moda no Rio e várias atrizes viviam me chamando: “Ai, vem pra minha casa, eu tenho uma festinha, me ajuda com uma roupa!” Eu pegava roupa, emprestava joias. A partir do momento que eu coloquei o meu seio, não me chamaram mais, as coisas mudaram. Eu continuei a mesma pessoa, com o mesmo caráter, com os mesmos princípios. O que um seio muda?O que a parte externa muda dos meus princípios? Nada. Mas eu n sei como as pessoas enxergam isso. Acho isso muito triste, preconceito ta aí presente em todos os setores.

 

SiteUR: As pessoas ainda observam as outras pela aparência. Fato isso?

Carol Marra: Pelo que elas são também, como é o meu caso. Coloquei o peito, algumas pessoas se afastaram, coisa que acho ótimo. As que se afastaram não eram amigas de verdade. Quem gosta de mim esta ao meu lado. Foi um divisor de águas em minha vida, sou muito mais feliz agora. Eu era uma mentira , vivi durante anos nela, eu era infeliz. Eu era um menino, ou tentava ser um menino que eu nunca fui, para agradar aos outros, para não agredir a minha família..

 

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SiteUR: Como começou essa mudança ?

Carol Marra: Eu sempre fui essa menina. Vestia-me de mulher escondida, de criança, mas mesmo usando roupa masculina, quando saia com os meus pais e as pessoas comentavam: Nossa, sua filha linda”, e eles respondiam: “Não é minha filha é meu filho”, Sempre fui essa coisa meia dúbia. Eu sempre fui muito feminina, mesmo de cabelo curto, pequeno.

Site UR: Mas, o que tinha de tão forte em sua aparência, que as pessoas achavam que você era menina? Brincava de boneca?

Carol Marra: Sempre, nunca brinquei de carrinho e bola. Foi uma infância muito triste e solitária, foi a pior fase da minha vida. Eu não trouxe os amigos da infância, para minha fase adulto, sempre fui sozinha. No Colégio, não ia ao banheiro masculino, por causa dos meninos que me batiam. Além de sofrer bulling, que na época não se usava essa palavra, mas sofria por ser bichinha, mulherzinha, era sempre xixi e coco na calça. Na faculdade eu entrava escondida no banheiro, tinha vergonha e na adolescência usava roupa unissex, para que as pessoas não identificassem, nem como homem ou mulher, fazia propositalmente, usando sempre roupas largas, meio gruge e skynni.

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SiteUR: Sua família via como tudo isso, aceitavam tranquilamente?

Carol Marra: Não. Quando eu revelei para eles que era trans, foi o meu psicólogo que falou. Foram conversar com eles. Eu tinha 23 anos da época, tinha acabado de me formar em jornalismo.

SiteUR: Do jornalismo ao mundo fashion. Como a moda entrou em sua vida?

Carol Marra: Eu fiz jornalismo, querendo trabalhar com produção de moda. Trabalhei primeiro com produção de telejornal na TV Globo e larguei tudo para trabalhar com produção de moda no Rio. Comecei a fazer maquiagem e fazia pacote com alguns editores de revistas, para tanto produzir a atriz/modelo entrevistada, como também maquiar e entrevistar, trabalhei com isso durante oito anos Nesse meio tempo fazendo isso, surgiram os trabalhos como modelo, na época de transição, estava me modificando.

SiteUR: Você lembra quando foi a primeira vez que se produziu toda de mulher?

Carol Marra: Lembro perfeitamente. Um amigo me maquiou, colocou a peruca e eu não tinha nem seio. Olhei no espelho e tive uma crise de choro. Pensei comigo mesma: “Essa sou eu de verdade”.

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SiteUR: Você acredita que a escola e a família precisam falar mais sobre essas questões logo que percebem casos desse tipo?

Carol Marra: A escola deveria sim tratar isso como assunto de grande relevância. Como o meu caso que não podia ir ao banheiro, as professoras deveriam ter a sensibilidade de perceber a diferença, deixar ir ao banheiro. Não criar um banheiro especial, pois tudo a gente generalize ou coloque em grupos, acabamos distanciando dos demais, mas deve ter um cuidado especial. Hoje, já existe essa preocupação, sei de casos, tanto de homens que viraram mulheres e vice-versa, até de nome social. Conheci uma menina de 13 anos no Rio de Janeiro, que na escola, a professora mesmo ela sendo menina, ela se impôs como menino e na lista de presença, ele é chamado com o nome que usa de menino. As coisas estão mudando, a lentos passos. Sou cidadã, voto, pago os meus impostos e na hora de exercer o direito de ser eu, sou negada. Não tenho documento de mulher, hoje é possível, mas é muito complicado.

Carol Marra Nossa estrela da nova Campanha Mundial da Vodka Absolut
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SiteUR: Na passarela, as pessoas tem um estranhamento e ainda a consideram como uma aberração?

Carol Marra: Todo desfile que faço sempre colocam com roupa pequena, biquíni ou decotão, daí as pessoas ficam olhando, com olhar de curiosidade, querendo achar algo de homem na minha imagem. Eu entendo como jornalista a curiosidade das pessoas, querendo saber como faço para esconder a genitália, se operei ou não, como faço para desfilar de biquíni e não mostrar nada. Eu não gosto que me rotulem, modelo transex ou atriz transex. Ser transex não é adjetivo. Ninguém fala, fulano de tal é ator hetero, isso não qualifica ninguém, antes de ser transex, sou tantas outras coisas, que isso acaba ficando tão pequeno. Eu nunca conto de cara a que conheço que sou trans, quero que as pessoas me conheçam como ser humano, para depois falar sobre a minha sexualidade.

SiteUR: E Por que Carol? Como surgiu esse nome que não é o seu de batismo?

Carol Marra: Um amigo me batizou em um voo para o Rio de Janeiro. Ele é maquiador e me disse que eu tinha cara de Carol, me batizou e pegou um frasco de perfume, o mesmo que uso há anos e me faz, Pronto, nasceu como Carol. Carol de Scarpan, dando três esbaforadas em minha cabeça. Peguei carinho e ficou Carol, e acrescentei Ana em homenagem a minha irmã, ficando Ana Carol Marra.

SiteUR: Como surgiram os convites na televisão, principalmente para atuar?

Carol Marra: Eu sempre quis fazer produção para cinema, nunca me imaginei como atriz, era um bicho do mato, morria de vergonha, sempre gostei da parte de produção, tanto foto como cinema. Acabou em virtude da carreira ter surgido por acaso, junto vieram os convites para TV também. Fiz primeiro um seriado no Multishow, chamado “Segredos Médicos”, no papel de uma mulher com câncer de mama, sendo protagonista. Foi um desastre! Não gostei da minha atuação. Depois surgiu um convite no “Psi”, HBO, tendo tempo de me preparar melhor. Mas foi Psi que me abriu portas, o The New York Times, viu e fez uma matéria enorme sobre o primeiro beijo trans na TV, vieram dois jornalistas de Nova Iorque me entrevistar, além da matéria impressa, foi home do site. 

SiteUR: Qual a importância desse seriado em sua formação como atriz?

Carol Marra: Fazendo esse seriado, percebi que era isso que queria para minha vida, mais que ser modelo, jornalista, eu quero trabalhar como atriz, viver disso. Não ser atriz de novela, ser famosa, mas quero ter a oportunidade de fazer papeis bons, fazer papel de mulher. Por que não? Tem tanto ator homossexual que faz papel de galã, por que tenho eu, que fazer papel de transex, não quero esse rotulo, se tiver de fazer um homem, raspo a cabeça, tiro a prótese e faço papel de homem, mas me deixem fazer o papel de mulher também. Na Grécia Antiga os homens faziam papeis de mulher, por que eu não posso também. Sou artista, sou uma atriz, quero fazer papeis femininos sim. E sou uma mulher.